corpo-como-risco

por: Alana Moraes

Em 2018, Bifo falava nessa entrevista com Amador Savater que voltar a nos entediar era a “última aventura possível”.

Bifo parte de um diagnóstico difícil sobre nossos tempos. A intensidade contemporânea das mediações tecnológicas digitais produziu uma verdadeira “mutação antropológica” das nossas sensibilidades e percepções.

Nesse novo regime, o corpo do outro nos aparece como “signo”, como informação. Além disso, a hiper-saturação de estímulos do modo conectivo vem produzindo uma “paralisia do corpo erótico”; a lógica do modo conectivo como matriz relacional depende de cada elemento permanecer diferenciado e interagir somente de uma maneira funcional, algoritmizada. Aqui a interpretação do sentido está reduzida (deve ser reduzida) a formatos mínimos.

O que se perde é então a experiência erótica do corpo (que não tem a ver simplesmente com relações sexuais) mas, de uma forma expandida, ela é percepção e experiência do corpo do outro como continuação sensível do meu corpo. À essa matriz erótica-relacional, Bifo chama de “conjuntiva”. Ela se situa em uma região de ambiguidades: estar aberto ao encontro é também correr risco. O erótico atua em um sentido forte de contaminação, confusão, afecção, do equívoco, do não-entendimento.

O modo conectivo, por sua vez, encontra uma nova zona de convergências e afinidades eletivas com (algumas) práticas neopentecostais populares e muitas das novas tecnologias securitárias de vigilância e militarização que se espalham pelo mundo. Trata-se aqui de produzir separações, condomínios, profilaxias imunitárias; a diferença deve ser exterminada, a confusão (exu!) deve ser ordenada. Dispositivos de subjetivações securitárias que fazem da vida uma imagem de pureza, proteção, segurança, blindagem.

O ruído e a diferença devem ser contidos – as “novas” direitas emergem desse tecido biopolítico, não de outro; Uma reorganização tecnológica do dispositivo colonial e racializado de produção intensiva de fronteiras e zonas de morte.

E aí chega a pandemia.

O corpo-como-risco seria capaz de restituir a hipótese erótica para a vida? A condição de isolamento nos impõe a percepção radical de que o que nos falta é essa continuação sensível do meu corpo no corpo do outro; Um bloqueio profundo e mesmo cognitivo que nos leva também às formulações de Bateson sobre a mente: a mente é capaz de pensar a vida porque pertence a um mundo vivo; ela não está “dentro” de nós.

Enfim poderíamos voltar agora a nos entediar como uma forma de recusa aos hiperestimulos, à mobilização constante de nossa atenção, uma “terapia da angustia”, uma abertura para o pensamento; o desejo do erótico como forma primeira de liberdade. Mas os dispositivos querem, ainda assim, nos organizar em mil formas de “entretenimento – “não pense na crise”.

Por outro lado, a contra-ofensiva imunológica parece ter encontrado agora terreno fértil: tecnologias de vigilância são convocadas ao controle epidemológico; pessoas tomadas por um desejo de segurança passam a “denunciar” outras pessoas que precisam fazer qualquer coisa na rua porque, às vezes, não se tem muitas opções. Outras começam a professar o “Estado Forte” como forma de contenção – como se não nos bastasse a força do que já temos. Fala-se em “Guerra”, mas é importante responder: queremos a restituição da vida em sua possibilidade erótica, não somos os seus soldados!

A crise é maior, é total. Ela nos faz pensar muito concretamente sobre que vida estamos vivendo, qual vida queremos viver – o vírus, como intruso, fabrica uma das maiores bifurcações da história: a vida tomada como forma securitizada, protegida, entretida, mobilizada para destruir “inimigos”; mas do outro lado, a vida em seu excesso, como forma erótica de habitar o mundo que não queremos perder; uma vida febril que sabe que a liberdade é também interdependência, risco, confusão, travessias. Exu.

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