Sentidos do tempo presente, futuro em disputa

@nick.hanne

de Angelina Peralva

Sabemos que a experiência do tempo é multidimensional. São muitas as dobras e escalas e nem caberia aqui tentar explorar todas. Mas há que dizer pelo menos que o tempo é uma construção “social”, ou coletiva, envolvendo ritmos mais ou menos independentes de nós e que se impõem a nós: a hora em que professor e alunos entram em sala de aula; a hora em que, na Zona de Contágio, nos encontramos para cons_pirar (5a feira, 19 horas, a cada duas semanas). De outro lado, há também ritmos subjetivamente construídos, conforme um espaço de escolha – a “autogestão do sentido”, segundo a sugestiva expressão de Savater. De um lado, tempo imposto, ritmos obrigatórios. De outro, tempo escolhido. O tempo nos coordena, mas ele também nos obriga. Essa coordenação não é neutra – ela é atravessada por relações de poder.

Qual o grau de obrigação e qual o espaço de escolha? Não há resposta única para isso. Tudo depende dos contextos específicos e das condições individuais. Sempre me pareceu que a universidade ainda é um espaço relativamente privilegiado do ponto de vista do grau de liberdade que ela deixa a cada um. Relativamente, porque as condições de trabalho pioram a cada dia. Em apenas um ano letivo, no meu departamento da Universidade de Toulouse, três professoras-pesquisadoras entraram em licença médica durante vários meses por burn out. Eram jovens mães, com filhos pequenos, em começo de carreira, que não aguentaram o ritmo. Para elas, o espaço de escolha foi praticamente zerado.

No mundo capitalista, há dois vetores principais na construção coletiva do tempo imposto: o Estado e o “mercado”. Consta que Jules Ferry, pai da ensino público francês, gostava de olhar o relógio e dizer: neste exato momento, todas as crianças da República estão entrando na escola. Essa unidade temporal manifesta, nos quatro cantos do país, era expressão direta do poder do Estado em construir, através da escola, uma sociedade nacional.

Os mecanismos de imposição do tempo a que recorre o “mercado” têm variado consideravelmente. Em L’Établi (1978), livro que teve à época uma recepção fulgurante, Robert Linhart mostrou de que forma os operários resistiam, nas linhas de montagem, aos ritmos de trabalho impostos pelas usinas fordistas. Com o declínio do assalariamento e sua substituição crescente pelo empreendedorismo como modo de construção da dependência econômica, os mecanismos de imposição do tempo passaram a ser outros – os da uberização do trabalho e as múltiplas formas de terceirização, como mostrou Ken Loach em “Você não estava aqui”. Outros, mas não menos brutais. O tempo escolhido do personagem de Ken Loach, como o das jovens professoras-pesquisadoras do meu departamento, foi praticamente zerado.

Apesar disso, a dialética entre tempo imposto e tempo escolhido permanece como um dos espaços através dos quais uma reflexão sobre o tempo se torna possível.

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Hoje, no entanto, o grande arquiteto do tempo, o senhor dos relógios, já não é mais o Estado, e tampouco o capital, mas um vírus altamente contagioso e particularmente letal, que pôs em cheque os sistemas de saúde mundo afora. O virus criou a experiência do confinamento, impôs seu ritmo e suas exigências aos Estados e quebrou a economia capitalista em um grau jamais visto. Os mercados financeiros continuam a especular e há gente ganhando muito dinheiro com a especulação, como mostra o movimento das bolsas. Mas nada e ninguém é capaz de esconder as impressionantes imagens das filas de aviões estacionados em grandes aeroportos internacionais como Orly ou Barajas, o mergulho espetacular dos preços do petróleo ou os trinta milhões de desempregados nos Estados Unidos.

O virus introduziu também uma incerteza duradoura em relação ao presente e ao futuro. Fazendo pairar sobre cada um de nós a sombra da morte, ele redefiniu nossas urgências subjetivas. Não se trata apenas, desta vez, de uma simples suspensão do tempo. Trata-se de uma incerteza radical em relação às nossas condições de existência e ao que será daqui para frente o normal das nossas vidas. Pelo menos até que uma vacina esteja disponível – isto é, daqui a um ano, um ano e meio, segundo as melhores previsões. Penso que isso nos empurrará – talvez – para comportamentos mais frugais. Somos mais facilmente levados a reconhecer a inutilidade de uma parte do que consumimos – a partir da simples consciência de que aquilo que deixamos de consumir, sem grande dificuldade, em verdade não nos faz falta; e a partir daquilo que o próprio poder público define como atividades “essenciais”, jogando todo o resto para o registro do “não essencial”.

O confinamento tem favorecido uma volta à cozinha. Na França, falta farinha de trigo nos mercados porque as pessoas puseram-se a fazer pão. E o governo se inquieta com a sorte das 50.000 padarias artesanais desertadas pelos franceses em todo o país. Em São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro, já não se encontram galinhas vivas para comprar porque os moradores do município (terceiro em população, no Estado) resolveram produzir seus próprios ovos. Maior frugalidade do consumo, produção doméstica de alimentos, interesse crescente pela permacultura – tudo isso aponta para uma redefinição de necessidades e uma reconfiguração dos comportamentos.

Empurradas pelos efeitos duradouros da pandemia, pelo prolongamento do teletrabalho “sempre que possível”, inclusive em situações em que os governos falam de desconfinamento, essa redefinição de necessidades e essa reconfiguração dos comportamentos têm muita chance de se estabilizar. Tanto mais que a crise econômica será profunda e feroz. A ruptura com a “austeridade” (aquela imposta aos pobres), mola-mestra das políticas neoliberais e de seus impasses – que precederam a pandemia – foi imposta pelo virus como condição minimamente necessária para a gestão da crise ; e prosseguirá obrigatoriamente no momento da reconstrução e da busca das saídas de crise. Que governo poderá esquecer, em nome de um liberalismo agressivo, a importância dos sistemas públicos de saúde? Que coerência e que sentido poderá ter, para os fiéis das igrejas evangélicas, a ideia de prosperidade individual quando o virus nos impõe a solidariedade coletiva?

Em Como a Democracia Chega ao Fim (2018), David Runciman cita o especialista em história antiga Walter Scheidel (2017) que afirma que, na história humana, nenhuma sociedade conseguiu corrigir a desigualdade crescente sem a intervenção da violência em grande escala. “Ela não precisa assumir a forma de uma guerra, diz Runciman. Uma revolução violenta, uma calamidade natural, uma epidemia ou uma peste podem bastar. Não precisam dar origem às formas de solidariedade social que surgem no caso das guerras de sobrevivência das nações. Basta que a experiência coletiva da violência seja suficientemente difundida para que todos sofram em relativa igualdade de condições. Uma calamidade que aniquile as propriedades e as vidas dos ricos no mesmo grau que afeta as dos mais pobres pode contribuir para o advento de uma sociedade mais igualitária. E também instalar um verdadeiro inferno na terra”…

O futuro está em disputa. O virus não destruiu o capitalismo, mas embaralhou as cartas. Ele está nos dando uma chance de ampliarmos nossa compreensão e nossa definição do planeta que queremos.

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