Notas sobre Monocultura – investigações I

encontro 22/10/2020

“A empresa monocultora foi o motor da expansão europeia. As chamadas plantations produziram a riqueza – e o modus operandi – que permitiu aos europeus dominarem o mundo. Fala-se em tecnologias e recursos superiores, mas foi o sistema de plantation que tornou possível as frotas marítimas, a ciência e mesmo a industrialização. As plantations são sistemas de plantio ordenado realizado por mão de obra de não proprietários e direcionados à exportação. As plantations aprofundam a domesticação, reintensificando as dependências das plantas e forçando a fertilidade. Tomando de empréstimo da agricultura de cereais promovida pelo Estado, investiu-se tudo na superabundância de uma só lavoura. Mas faltou um ingrediente: removeu-se o amor. Ao invés do romance conectando as pessoas, as plantas e os lugares, os monocultores europeus nos apresentaram o cultivo pela coerção” A. Tsing

tomar a imagem da monocultura a partir das diferentes figurações e construir uma paisagem comum sobre a monocultura: o que estamos falando ou estamos vemos quando pensamos em monocultura? Quais são seus elementos constitutivos? 

Lembrei do Hijikata Tatsumi. Era dançarino de Butô ou Ankoku Butô (“dança das trevas”). Aí, num dos diários dele, cacei uma citação agora: “É dito que Deus não existe no Japão, mas o que substitui Deus, por exemplo, é a vida cotidiana – ela existe ao nosso redor e os japoneses são capazes de captá-la. Só não se deve enganar o cotidiano. E os japoneses são dotados de uma capacidade de lidar com esse conflito (…). O conceito de carne é anárquico entre os japoneses”(HIJIKATA apud UNO, 2018:138). 

 
a carne é o excesso. excesso e desobediência ao corpo orgânico/biológico 


Quem escreve sobre Tatsumi Hijikata é o filósofo Kuniichi-Uno, amigo do dançarino de Akita, última província antes da ilha de Hokkaido. Hijikata emigra para Tóquio no contexto dos deslocamentos de camponeses, agricultores e povos indígenas do norte do Japão para as províncias industriais. Deslocamento marcante no início período Meiji até os anos do pós-guerra. Em Tóquio ele se envolve com os movimentos filosóficos  e cria o butô, uma metamorfose contínua do corpo. Hijikata tinha características étnicas dos povos do norte do Japão: o que o fazia ser tido como um “caipira” em Tóquio. Citação do diário de Hijikata, sobre o processo de uma coreografia que chamou de Dançarina Doente: “Em 1938, nas regiões de monocultura do nordeste (Tôhoku), existia uma espécie de oclusão anal. O grito (das crianças) estava silenciado na cultura preservada. Esse grito é um acompanhamento importante de minha dança hoje. Foi um grito primitivo do qual eu posso rir, hoje, após doze anos de vida em Tokyo. Eu saboreio esse grito e o fundo de gestos ritualizados através das minhas observações da vida cotidiana. Eu invento os passos moldados de nossos dias a partir da terra negra onde dançar não é voar. Meu mestre de dança é a terra negra do Japão” (HIJIKATA apud UNO, 2018: 33).   


traz a lembrança de como somos pensados pelas bactérias. De como o intestino é um segundo cérebro,  o lado visceral da gente. E na boca vai mastigando cada vez menos sabores. Paragens no paladar. Paragens na pluralidade de alimentos possíveis advindas da Revolução Verde. Um mundo preenchido de pasto, soja, milho, cana, trigo e mais meia dúzia de plantas industrializadas até em sua genética. A monocultura dentro do boca reduz as possibilidades da flora intestinal. 


A monocultura produzindo monotonias paisagísticas. Plantação de paisagens monoculturais. Nuvens de fuligens. Nuvens de gafanhotos. A civilização como projeto de eliminação de diversidades. Ruralidades industrializadas. A voracidade do capital e a voracidade dos gafanhotos. Os parasitas do capital financeiro produzindo uma imensa biodiversidade de vírus mortais. A eliminação das últimas áreas selvagens do mundo pela lógica tautológica do cifrão. A subida da bolsa e a queda do céu.

Kopenawa aplica rapé em Marx.

Audio 1: https://www.tramadora.net/wp-content/uploads/2020/10/Juliana-sobre-arvores.ogg

Dizer uma palavrinha sobre a questão das árvores trazida pela Ju a partir da leitura que ela está fazendo da queda do céu. Ela retoma a insistencia de kopenawa das capacidades perceptivas e de como temos uma percepcão reduzida.  Há uma polifonia interessante no grupo: a ancoragem do corpo, a questão da música.     

A gente vive um estado da arte – falo sobre a arte do sistema – que faz a gente viver uma plantation cultural (por parte das instituições), vivemos também pela digitalizacão da cultura. A monocultura traz algo muito forte, e que é seminal para seu funcionamento que é a separação da natureza e da cultura. Essa separação nos fez colocar uma coisa em detrimento da outra e não em relação à outra. A diversidade cosmopolítica que estamos colhendo aqui está no mundo, mas nosso corpo não expressa, pois nosso core/código o separou de tal forma que nos faz construir um mundo tal como ele se coloca. 


Por mais que imaginemos outras possibilidades, não praticamos essas possibilidades. Eu revoltei quase como um furacão como não favorecer essa monocultura?        

É gostoso ouvir tanta gente diferente. Pensar as dimensões da monocultura [ agora, aqui em casa, acaba de acontecer um ataque terrorista da cigarra sobre um cachorro que se compôs junto com a fala do Gustavo] Quando a gente começou a achar que os insetos são menores do que a gente? Quais as árvores que são menores que a gente?

Porque a monocultura tem um certo silêncio. A floresta produz uma paisagem sonora muito mais rica que a da monocultura. 

mesmo  os “regionalismos linguísticos” como uma resistência às monoculturas

>> Um exercício: trazer outras vozes e outros silêncios como um exercício de quebrar monoculturas de comunicação, de produção de conhecimento.

Audio 2: https://www.tramadora.net/wp-content/uploads/2020/10/Marcelo-audio_2020-10-22_17-33-33.ogg

 

Pensar no Mario, personagem do jogo da Nintendo, ele vive num reino dos cogumelos, um reino independente que está sob o perigo de ser dominado pelo Bowser – uma tartaruga desenvolvimentista que quer fazer uma monocultura de cogumelos.

Como delimitar o que seria a monocultura? Como chegamos num exercício de uma monocultura em comum?

Pensei na ideia de hapticidade do Moten e Harney que tem a ver com a pele, com o que sentimos. A pele é o contrário do cérebro, o cérebro é uma monocultura do pensamento. A pele é o maior órgão do corpo que está sendo usado apenas para tocar telas (touch-screen). Como ser mais superfície e menos volume? A dança é o pensamento do corpo, e se a gente pensa com o corpo, nosso pensamento seria dançado. A questão da contraposição entre volume e superfície para mim é uma questão que esbarra no tempo. 

O que é monocultura me fez pensar na monocultura a partir da Vandana Shiva. Ela diz que é uma ideologia dominante que opera para dar cabo às várias formas de diversidade. Ela conectou com a ideia de corpos que não são mais capazes de dar o grito do butô. Ela recomendou um livro do João Barbosa Rodrigues – um dos precursores na defesa dos conhecimentos indígenas. Esse é um  exemplo da expropriação dos commons.          


Fiquei pensando na monocultura como uma cultura do mono. O que a gente perde quando não consegue mais se acocorar? A gente consegue rastejar? Consegue ser cobra? Ser macaco? Retomar o primata.                               

>> Um exercício: Usem os livros como apoio para os calcanhares, um apoio para acocorar.  A gente acha que tá aprendendo, mas na verdade tá desaprendendo a ficar de cócoras.    

                                    
Lembrar: O pensamento selvagem é aquele que se recusa a se tornar recurso.

Audio 3: https://www.tramadora.net/wp-content/uploads/2020/10/Bru-audio_brutalismo.ogg

     
Quero retomar um pouco a proposicão inicial de habitar uma paisagem comum entre a gente.  Possibilidade que potencializa as diferenças. Máquina abstrata de correlação.  Quando apareceu a monocultura para essa discussão, isso me gerou um curto-circuito. O que tem me interessado são os modos de percepção: massificação de um conjunto de tecnologias, os  regimes de sensibilidade em relação aos diferentes arranjos tecnológicos. Quando a gente passa a falar das BIGTEC de comunicação digital, elas são um grande éter mundial de mediação de uma monocultura. Junção de uma arquitetura material e de linguagem: é o semiocapitalismo. Nisso, a questão do imaginário é outra camada que está colocada: que imaginação é ainda possível?

A internet é uma baita de uma monocultura: tudo feito de 0 e 1.

Lembrou de um filme Life Out of Balance que tem várias imagens sobre monocultura: aceleração da imagem das pessoas saindo do metro junto com imagens de salsichas sendo produzidas.   

Isso de fazer da cócoras uma imagem de pensamento, uma localização de pensamento. Nos leva a pensar o que seria produzir um modo de existência próximo ao chão. A gente tem que ficar de cócoras quando vai mexer na terra, nas plantas.

Acocorar também é um processo narrativo: lembro da minha batchan, que ficava muito de cócoras. Ela passava muito tempo de cócoras e tinha uma hortinha. Ela tinha um modo de dizer das coisas que era um jeito muito cotidiano mesmo; inclusive nos trejeitos dela de contar dos aspectos não humanos da ancestralidade de todas as coisas: toda a proliferação de coisas das quais somos ancestrais. A gente é ancestral dos insetos que foram encontrados na folha de alface, do mofo, de todos os lixos, das coisas que a gente cheirou, passou a mão. Somos ancestrais das roupas das pessoas que esbarramos no metrô. A gente é ancestral até do que a gente caga. A ancestralidade é mais do que uma genealogia. Mas é preciso  pensar no cotidiano, pensar agachado,  matutar abaixada, como fazia a minha batchan.

A plantation opera com dois dispositivos: (1) cultivo como coerção, como imobilização, como impedimento do tempo livre; (2) a casa como dispositivo de produção de um corpo heterossocial. As mulheres brancas são convocadas a manter a pureza do lar, de garantir a separação entre o dentro e o fora – a pureza do lar é a própria pureza da raça no caso da plantation. A casa produz o corpo doméstico que está separado do fora.      

o corpo é político

A separação entre público e o privado precisa ser criticada. Lembra da Calibã e a Bruxa e o livro da Carolyn Marchant, The death of nature.   As imagens compartilhadas transmitem um quê de desorientação, desorientação programada, um bloqueio das percepções. Como seria retomar a fugitividade presente nas plantations? A plantation tem medo da festa, do encontro, da produção do tempo livre.  

lembrando da Val Plumbwood, no olho do crocodilo” A negação excepcionalista de que nós somos alimento para os outros se reflete em muitos aspectos de nossas práticas convencionais de morte e sepultamento – o caixão forte, convencionalmente enterrado bem abaixo do nível de atividade da fauna do solo, e a laje sobre a sepultura para evitar que qualquer coisa nos desenterre, supostamente evita do corpo humano se tornar alimento para outras espécies. “(…)Para um ecológico, materialista animista, no entanto, a vida após a morte é uma presença ecológica positiva, pois possibilita deixar traços positivos na vida de outras espécies – não uma história, mas a continuidade da história.”

       

sobre a instalacão de fábrica da Ford na Amazônia. Tem uma fala do H.Ford: ele via essa floresta e ficava perturbado pela disposição das árvores. Enquanto as monoculturas de pinheiros, todas ordenadas, lhe dava conforto.

Peter Webe: Cada pessoa quando entra na floresta é atraída por uma árvore, por uma forma, por uma coisa diferente. 

Lembrar das brincadeiras (de imitar bicho) e do maracatu, quem toca maracatu é brincante.          

O que vem junto com a monocultura? Eu trabalhei 5 anos em uma empresa de desenvolvimento de tecidos. A monocultura é algo frágil e há um aparato para manter a fragilidade através da criação de vazios. Mas vazios envenenados que é tolhido de possibilidades. Precisamos pensar nas Terminators: sementes que não se reproduzem.   Desde o começo do plantio, quando você tem que limpar a terra — e o que se faz hoje é envenenar a terra — o que se produz é um vazio que não é uma miríade de possibilidades, mas um vazio envenenado, um vazio tolhido de possibilidades, um vazio que é todo recortado. Conforme as plantas vão crescendo, o vazio de possibilidades precisa ser perpetuado para que seja mantido uma possibilidade única — estou imaginando aqui a soja tratada com glifosato — e os mecanismos para se manter esse vazio de possibilidades são inúmeros, desde a aplicação de uma molécula química, desde o gene inserido para gerar uma variedade particularmente resistente a esse ambiente, que vai tolerar esse ambiente, que vai possivelmente não permitir a reprodução de outras espécies, como dos insetos que não vão conseguir se alimentar daquela planta. E não só antes e durante a colheita, mas após ela, também se aplicam produtos que vão inviabilizar que no solo que permanece seja plantada qualquer coisa que não aquela que estava plantada antes. É isso, eu vejo um monte de esforços no campo da ciência da agricultura para produzir esses vazios, pois é uma condição necessária para produzir o mono. A monocultura precisa desse vazio condicionado para esse único.

Um dos problemas que estou pensando no doutorado é a possibilidade de reemergência de um mundo mapuche que foi destruído ou deixado em ruínas pela colonização e, entre outras coisas, isso passa por discutir o retorno dos bosques e das florestas nativas em terrenos que tinham sido cooptados por colonos e por empresas de capital internacional. Então, a primeira coisa que gostaria de pensar com vocês aqui, é esse uso da palavra monocultura que permite que a gente utilize a ideia de cultura com esse duplo sentido: como algo que diz respeito à diversidade humana quanto também à diversidade de seres não humanos. Em ambos os sentidos da ideia de cultura, ainda lidamos com o problema do controle. Assim, falar de monocultura para mim é necessariamente falar da substituição de um regime de diferenças por um regime de controle e isso é super interessante, pois se conecta bem com um dos pontos que tinha sido levantado: que a agricultura, no estilo monocultura, não é uma invenção banal, ela foi inventada pelas mesmas pessoas que inventaram coisas como o estado. Porque, justamente, em ambos os sentidos, isso tem a ver com a ideia de produzir equivalências entre as diferenças para poder controlar os regimes de proliferação fazendo com que as pessoas não encontrem caminhos para se proliferar ou encontrar escapes. Partindo desse lugar de trabalho e de pensamento com companheiros no sul do Chile, dos Mapuche, acho importante, sim, falar em linhas de fuga, de possibilidades, de falar de algum modo de resistir. Mas também de reconhecer que os custos dessas linhas de fuga e dessas resistência são assimétricos, desequilibrados. Tem uma socióloga boliviana, a Silvia Rivera Cusicanqui que diz que adora quando fica lendo coisas sobre decolonialidade, sobre descolonização, pois o lugar de quem fala na academia é um lugar pouco custoso de transformar esse lugar da resistência, da linha de fuga, num lugar para pensar. Ela diz que a produção dessas coisas efetivas da linha de fuga, da resistência, precisa ser feita na prática. Como a gente faz isso?

   

A Terra sendo  perseguida pelo homem: isso é a plantation. 

Abigail Campos Leal provoca: o que é pensar alianças quando a gente recusa o lugar da humanidade? Será que temos sempre que aceitar a figura do humano como ponto de partida? podemos existir de outros modos que não o modo humano?  É importante pensar a ideia de limpeza quando pensamos nas monoculturas. As agroflorestas produzem podas para que pedaços caiam no chão. 

No livro do Ailton Krenak, “Ideias para adiar o fim do mundo”, quando ele fala que a ideia de krenak não é exatamente a ideia de humano como concebemos, mas sim uma formação entre cabeça (kre) e terra (nak) — os Krenak, aqueles que se chamam “nós, os Krenak”, são “nós, cabeças-terra” —. Aí ele fala sobre justamente como no momento que a gente transforma as montanhas e os rios em natureza, a gente acaba transformando essas coisas em recursos passíveis de serem espoliados. E por que ele tá dizendo isso? Porque para o nosso regime o humano faz parte de um conjunto de problemas, enquanto rios e montanhas são parte outro conjunto de problemas. Acho isso superinteressante, porque, no fundo, tem uma concepção de ser gente que não tem a mesma preocupação que a ideia de humano e, no entanto, o que a monocultura faz, é transformar os índios em humanos. Assim, quando falamos sobre regimes de sensibilidade, regimes de percepção precisamos lembrar também dessas outras formas de se ser gente.


Helio Oiticica: devolver o corpo a terra. devolver terra ao corpo.

lembrar: as ocupações que mais crescem no mundo, em termos de trabalho mal-remunerado e subalternizado são os trabalhos  da indústria da limpeza e os de segurança.

pensar: a imagem de uma fruta com terra, minhocas – nada aí parece limpo mas é ao mesmo tempo cheio de vida, de possibilidades

Quando penso em monocultura penso no algodão e daí podem surgir as tramas, os tecidos.        

Quero retomar a perspectiva do conflito. Estamos falando de uma guerra de mundos. Os projetos de monoculturas são projetos de morte, de uma morte coletiva.         

Como os parasitas operam controle populacional (contra a monocultura). O fim e a diversidade.

Eben Kirksey (imagem do parasita de Serres) Parasita como gerador de diversidade; Cordíceps e as formigas-cipó… diferentes tipos de cordíceps:        https://youtu.be/6B2tfDg4BJk         

Que fim e que morte opera na monocultura e nas culturas da multiplicidade/diversidade? Quais recursos que as espécies tem pra evitar seu fim?
        

cigarra e criaturas que atravessam e interrompem ou mudam o curso da conversa    
       

MONO    

MASTOZOOLOGIA•MAMÍFERO

design. comum aos macacos em geral e, em particular, aos primatas antropoides, destituídos de cauda e dotados de longos braços, como o chimpanzé, o orangotango, o gorila e os gibões

MASTOZOOLOGIA•MAMÍFERO

m.q. MURIQUI  (Brachyteles arachnoides )

BRASILEIRISMO•BRASIL

m.q. RENDEIRA ( Manacus manacus ).

Angelina Peralva

Aline Souza

Gustavo Torrezan

Teresa Siewerdt

Bru Pereira

Juliana Meira

Glauco Gonçalves

Leonardo

Marcelo Jungmann

Maria Morita

Marina Guzzo

Danilo Zampronio

Lucas Maciel

Alana Moraes

Henrique Parra

Jessica Paifer